<![CDATA[Hugo Baraúna]]>https://hugobarauna.com/https://hugobarauna.com/favicon.pngHugo Baraúnahttps://hugobarauna.com/Ghost 5.2Mon, 16 Mar 2026 10:37:12 GMT60<![CDATA[O que é um sabático? Pra que serve e o que você aprende com ele?]]>https://hugobarauna.com/o-que-e-um-sabatico-pra-que-serve-e-o-que-voce-aprende-com-ele/605f7d95f7d38c46e1e517fdWed, 31 Mar 2021 14:30:22 GMT

Na virada de 2019 para 2020 eu decidi que iria tirar um período sabático. Essa decisão veio logo após o término de um grande ciclo da minha vida profissional: minha empresa (Plataformatec) foi comprada pela Nubank, 11 anos após termos fundado ela.

Foi algo muito bom, mas de repente eu me vi sem aquilo que me dava um grande sentido de vida. Sem aquele lugar de onde vinha muito da minha sensação de autorrealização e felicidade. Mas nem tudo é pra sempre na vida né? Se nem a vida é para sempre, quanto mais um emprego ou até sua própria empresa.

Pois bem, após o término dessa história, eu não sabia qual seria o novo capítulo que eu iria começar. Então resolvi tirar um sabático. Peguei minhas economias e me dei de presente o equivalente a 9 meses de tempo. Um investimento em mim mesmo.

Em 7 de março de 2020 comecei este sabático.

Mas logo vieram perguntas, inquietações, sentimentos agradáveis, sentimentos desagradáveis, aprendizados, entre outras coisas dessa experiência. Neste texto compartilho com você um pouco do que aprendi sobre a experiência de fazer um sabático.

Uma das primeiras perguntas que eu me fiz foi: "o que é um sabático?".

O que é um sabático?

Qual é a primeira ideia que vem na sua cabeça quando você pensa em sabático? Viajar pelo mundo? Ficar de boa? Lazer o dia inteiro? Essas são algumas das primeiras imagens que uma pessoa tem sobre um sabático. Porém não era isso que eu estava buscando.

Desde o começo eu tinha claro: "não estou tirando um sabático para ficar de férias". Férias e sabático não são necessariamente a mesma coisa. Então fui buscar entender o que seria um sabático pra mim.

Um dos usos do termo "sabático" acontece no mundo acadêmico. Em algumas universidades, a cada seis anos de trabalho a pessoa professora pode tirar um ano de período fora da sua rotina de trabalho. A ideia é que ela use esse tempo para auto-desenvolvimento, para poder por exemplo visitar outras universidades e depois voltar para sua universidade original e ajudá-la a continuar evoluindo.

Outra origem do termo vem da cultura judaica. O sabático seria o sétimo ano do ciclo de sete anos da agricultura, um tempo para o descanso da terra.

Essa ideia de descanso da terra fez sentido pra mim, principalmente ao se pensar no descanso como um período de regeneração. Às vezes um organismo precisa de um tempo para se regenerar para depois voltar a produzir. E às vezes depois de um período de regeneração, você não volta a ser o mesmo que era antes, você se transforma.

Sabático como um período de regeneração e transformação foi o que fez mais sentido pra mim. Essa perspectiva se solidificou enquanto eu lia o livro "O tempo da felicidade: Um sabático para repensar a vida, priorizar seus objetivos e se renovar". Esse livro tem algumas metáforas interessantes sobre esse processo de transição. Ele fala por exemplo de uma cobra, que de tempos em tempos precisa naturalmente trocar de pele. Fala também da lagarta, que passa um período "parado" em transformação, para depois se tornar uma borboleta.

Ok, essa ideia de sabático como descanso, regeneração e transformação faz sentido. Mas ainda fica muito abstrata, né? É fácil entender isso para a troca de pele da cobra, ou então a metamorfose da borboleta... mas e um ser humano... o que na prática uma pessoa pode ou deveria fazer em um sabático?

O que você pode fazer durante um sabático?

Aprender a viver com calma e ressignificar o conceito de tempo

O sabático é um misto de período de calma, tédio e oportunidade.

É um período de calma porque, talvez, pela primeira vez na vida não é a sua agenda que tem você, é você que tem a agenda. Até este momento existia uma agenda para você cumprir, ela que te guiava. Ir para escola. Ir para faculdade. Ir para o trabalho.

Mas como seria sua vida se por alguns meses, você não tivesse uma agenda para cumprir?

Primeiro vem um sentimento de calma. Você percebe que não era o mundo que estava acelerado, somos nós que estamos acelerando ele. Você agora pode pensar e agir com calma. Mas isso não é fácil, porque sua vida inteira você foi treinado para outra coisa: viver "na correria".

O paradoxo criado entre sua habilidade de viver na correria e a oportunidade de viver com calma te leva para um outro lugar: tédio.

Você estava acostumado a viver tudo muito rápido. Sua mente tem décadas de treinamento de "vida correria"! As metas mensais e trimestrais. A falta de tempo e energia para ligar para um amigo ou para fazer uma visita para sua família. Tudo para ontem! Quando alguém te perguntava como estavam as coisas, o que você falava? "Ta correria".

Daí quando você não tem mais uma agenda para cumprir, percebe que você não tem habilidade para decidir o que fazer com seu tempo o tempo inteiro. Você estava acostumado a decidir apenas o que faria com o seu "tempo livre". Você teve pouquíssimo treino na sua vida em decidir o que fazer com seu tempo, quando não existe uma agenda extrínseca que contenha você.

Algumas pessoas tentam preencher o tédio criado por essa abundância de tempo unicamente com lazer. Afinal, é isso que deve ser uma boa vida, né? Lazer o dia inteiro! Viajar, comer, beber, ver Netflix etc. O que te der prazer.

Apesar do lazer ser essencial e muito gostoso, talvez não seja bom viver o dia inteiro todo dia só de lazer. No extremo da ideia de prazer o tempo todo, imagina alguém tendo orgasmo o dia inteiro 100% do tempo?! Apesar de parecer atraente, acho que não é uma boa ideia.

Então o que fazer com esse tempo que você se deu, além de lazer?

Uma possível resposta: autoconhecimento.

Autoconhecimento

A grande maioria das suas atitudes até agora foi orientada por conhecer o mundo exterior. Entender como ele funciona, conseguir modificá-lo, causar um impacto nele. Seja através da escola, da faculdade ou do seu emprego, o direcionamento foi majoritariamente de conhecer, entender e mudar o mundo exterior.

Mas e quanto a conhecer e mudar você mesmo? Quem é você além do seu crachá? Quem é você de verdade, na sua essência?

Essas perguntas podem parecer bizarras, mas talvez porque você não tenha tido tempo suficiente para refletir sobre elas até então. O sabático é uma bela oportunidade para isso.

Apesar de existir um planeta em volta de nós, eu acredito que cada um carrega um universo dentro de si. Acontece que nem todos têm a curiosidade ou oportunidade para explorar esse espaço. Se você se der o presente do sabático, essa é sua chance. Mas como fazer isso?

Autoconhecimento através da escrita

Uma ferramenta básica, acessível e muito poderosa de autoconhecimento é escrever. Escrever para você mesmo. Pense que a escrita não precisa ser algo que você faz só depois que tem uma ideia bem formada sobre si. Mas sim um processo pelo qual você organiza suas ideias e se descobre a cada nova palavra.

Mas escrever sobre o que? Sobre o que você pensa. Sobre o que você deseja. Sobre seus medos, seus anseios, suas emoções e sentimentos.

Um exemplo próprio foi um texto que escrevi para responder a seguinte pergunta: "Ok, eu quero refazer o site da Elixir Radar... mas por que? Isso está alinhado com o que eu quero da vida? O que eu quero da vida?".

Escreva e deixe fluir. Não precisa publicar o texto, pode ser só para você.

Autoconhecimento através de ferramentas

Você pode também usar a ajuda de ferramentas para entender e conseguir articular quem você é. Estou falando daquelas ferramentas baseadas em questionários de auto-relato ou auto-percepção.

Talvez você já tenha usado alguma delas na sua empresa, ferramentas como DISC, MBTI, MEP. São ferramentas muito interessantes, e eu mesmo já usei algumas delas para mim, como o DISC e o MEP. Porém, quando usei essas ferramentas, era sobre autoconhecimento e desenvolvimento para o trabalho.

O que estou propondo aqui é usar ferramentas de autoconhecimento para você como um todo, inclusive fora do trabalho. Precisamos ter atenção para não limitar o ser humano a um trabalhador, essa é apenas uma (e importante) faceta de nós, mas existem várias outras.

Uma ferramenta que aprendi na pós-graduação de psicologia positiva e que achei sensacional se chama "virtudes e forças de caráter". Essa ferramenta foi criada a partir de uma pesquisa científica que buscou entender quais são as boas características dos seres humanos que geram uma sensação de bem estar e são valorizadas independente do tempo na história, da cultura ou da região.

Essa pesquisa foi feita por um time de 55 cientistas ao longo de 3 anos, e chegou em 24 forças de caráter (características) agrupadas em 6 virtudes:

O que é um sabático? Pra que serve e o que você aprende com ele?
Virtudes e forças de caráter (crédito da imagem para o professor Gustavo Arns)

A ferramenta para descobrir suas forças de caráter é online e gratuita. O conjunto das suas forças de caráter é algo que define você, sem elas, você não é você. Esse é um modo de descobrir sua essência.

O interessante em conseguir transformar esse autoconhecimento de tácito para explícito é que você pode começar a usar suas características e forças de novas maneiras. Por exemplo, imagine que você descobre que uma das suas forças de caráter é "curiosidade". Você reconhece isso em você: "sim, eu tenho muita curiosidade sobre as coisas, sobre o mundo, sobre como as coisas funcionam". Daí você pode refletir: Em quais aspectos da sua vida você mais tem usado essa força? Que tal usá-la em situações diferentes?

Se você tem curiosidade por conhecimento, poderia por exemplo usá-la também para desenvolver mais interesse pelas pessoas. Usar sua curiosidade para entrar em uma conversa e poder ouvir mais a outra pessoa, praticar escuta ativa. Usar sua curiosidade para descobrir um interesse genuíno em quem é a pessoa do outro lado, o que ela pensa, como ela se sente e como vocês se conectam.

Expandir sua identidade

Imagine que você está no meio de um sabático, você conhece uma pessoa e ela pede para você se apresentar. Como você se apresenta?

Se fosse antes do sabático, eu responderia: "Meu nome é Hugo, sou engenheiro". Ou: "Meu nome é Hugo, sou empreendedor". E por aí vai. O padrão entre essas respostas é que o modo como nos definimos para os outros é através do nosso trabalho, emprego ou cargo.

Acontece que isso não é só como nos apresentamos para os outros, é também a lente que usamos para ver a nós mesmos, nossa identidade. Talvez você não tenha parado para perceber que você está usando essa lente. Essa lente faz parte de você de tal modo, que você e a lente são uma unidade só. Usando as ideias do Robert Kegan, no seu livro sobre desenvolvimento adulto, o "The Evolving Self":

"Não é você que tem a lente, é a lente que tem você."

Talvez até esse momento da sua vida, não é você que tem um trabalho, é o trabalho que tem você. Ele é a sua identidade. É a partir da óptica do trabalho, da necessidade de produzir, que você vê o mundo.

Acontece que no sabático você tem tempo e chance para poder perceber que você está usando essa lente. Você pode refletir se você quer continuar usando ela, se não quer mais, ou em que momento que faz sentido usá-la. Descobrir que existem várias lentes possíveis para como você enxerga a si mesmo e o mundo.

Essa questão de rever sua identidade é algo profundo e leva tempo. Sobre esse assunto, eu recomendo alguns livros sobre desenvolvimento adulto, "The Evolving Self" e "Imunidade à mudança", ambos do psicólogo e professor de Harvard, Robert Kegan.

O que você pode aprender durante um período sabático?

Na escola você aprendeu sobre português, matemática, história, química, física etc. Na faculdade você continuou aprendendo sobre alguns desses temas, mas de modo mais profundo, mais especializado. Se você fez uma pós na sua área, se especializou ainda mais dentro dos mesmos temas.

Sabe qual um padrão comum nessa trilha de mais de 15 anos de estudo e aprendizado? Aprendizado de competências técnicas que te ajudam a conseguir um emprego, fazer dinheiro e ganhar status.

Você pode usar o seu sabático para avançar ainda mais nessa trilha. Mas, já que deu uma "pausa para respirar" de um modo um pouco mais amplo... que tal pensar sobre aprender outras coisas?

No livro "O curso do amor", o filósofo Alain de Botton traz uma provocação muito interessante. Ele fala algo como:

Nosso erro é supor que já nascemos sabendo amar e que, portanto, administrar um relacionamento deve ser fácil e intuitivo. Este livro parte de uma premissa diferente: o amor é uma habilidade a ser aprendida, não apenas uma emoção a ser sentida.

Assim como o amor romântico, existe uma série de outras questões importantes da nossa vida onde colocamos pouca energia para desenvolver de modo deliberado porque achamos que já fazemos saber naturalmente. Questões como:

  • Como ter boas conversas?
  • Como achar um trabalho que faça sentido?
  • Como ser feliz?

Você alguma vez parou para desenvolver como ter boas conversas? Provavelmente não. Esse tipo de coisa a gente acha que sabe fazer de modo inato. A gente saiu fazendo e vem fazendo há tempos, então quer dizer que a gente já sabe fazer bem, né? Não necessariamente.

Um dos meus principais aprendizados durante o sabático foi sobre a ideia de abordar essas questões como habilidades que podem ser desenvolvidas, como temas que eu posso aprender mais e de modo deliberado.

Essa é uma perspectiva diferente, pois onde normalmente a gente investe tempo para se desenvolver? É mais comum que seja em algo relacionado a produzir, relacionado ao trabalho. Mas podemos colocar energia para ficar melhor em outros aspectos das nossas vidas também, outros aspectos que contribuem para sermos melhores pessoas, não só melhores profissionais.

Um desses aspectos pode ser aprender mais sobre como ser feliz. Esse foi um dos aspectos onde coloquei energia no meu sabático e vou compartilhar um pouco com você.

Aprender que existem vários modos de ser feliz

Quando se fala em felicidade, logo algumas pessoas pensam: "precisa ter dinheiro". De fato, dinheiro ajuda. Ajuda não porque vai gerar felicidade diretamente, mas permite eliminar coisas que te trariam tristeza. Ele facilita. Em até certa medida, o dinheiro pode ser condição necessária para a felicidade, mas não suficiente.

Você pode usar o dinheiro para ter o que comer. Ter uma casa. Ter conforto. Isso pode te trazer alguns prazeres e te ajudar a ter menos momentos de tristeza. Mas, a ausência de tristeza não quer dizer presença de felicidade.

No sabático aprendi que a felicidade já foi estudada por várias disciplinas. Conhecer um pouco mais delas me deu novas lentes para como enxergar felicidade. As duas que estudei um pouco foram filosofia e psicologia.

Felicidade segundo duas ópticas da filosofia

Na filosofia existem algumas linhas que tratam sobre felicidade. Entre elas, a linha hedônica e a linha eudaimônica.

A linha hedônica vem de Epicuro. Ele fala sobre experienciar a felicidade através da satisfação dos prazeres. Através de sentir emoções agradáveis. A ideia não é o prazer a qualquer custo e em excesso, pois o prazer de hoje não pode comprometer o prazer de amanhã, tem que ter equilíbrio. A ideia é desenvolver a capacidade de ter prazer nas pequenas coisas. Quem tem essa capacidade, consegue ser feliz em mais situações e é menos dependente do contexto externo.

A linha eudaimônica vem de Aristóteles. Ele fala que a felicidade vem de identificar e praticar suas virtudes. As virtudes são características no equilíbrio entre os extremos da deficiência e o excesso. A coragem por exemplo é o equilíbrio entre a covardia e a imprudência. A felicidade para Aristóteles é a vivência das suas forças e virtudes com plenitude e excelência. Onde excelência não quer dizer máxima performance, mas sim da melhor forma que você puder fazer com as condições que tem hoje.

Felicidade segundo uma óptica da psicologia

Na psicologia positiva, existe um modelo interessante que explica algumas dimensões relacionadas a felicidade, o modelo PERMA:

  • Positive emotions (emoções positivas): sentir emoções positivas como alegria, gratidão e otimismo
  • Engagement (engajamento, flow): estar absorvido por atividades que usem suas habilidades e o desafie
  • Relationships (relacionamentos): ter e viver bons relacionamentos, com amigos, pais, irmão, cônjuges etc
  • Meaning (sentido, significado): pertencer ou servir a algo que você acredita ser maior que você e que conecta com sua história de vida
  • Accomplishments (realizações): conquistas, resultados, entregas, realização de sonhos

Quando a gente vê um modelo desses, a gente pode pensar "faz sentido!", ou então "é óbvio". Sim, faz sentido porque conversa com aquilo que há de humano na gente. Porém, não basta fazer sentido, precisa vivenciar!

Sabe a diferença entre a pessoa sábia e a pessoa intelectual? A pessoa intelectual consegue falar e explicar muito bem alguma coisa. A pessoa sábia incorpora e vive o conhecimento adquirido na prática.

A ideia de aprender esses vários modelos não é simplesmente adquirir conhecimento, mas sim refletir sobre como você se vê através dessas ópticas e fazer alguma mudança prática nas suas atitudes. Para ser feliz não basta mentalizar, tem que agir.

No meu caso, quando aprendi o modelo PERMA, refleti sobre o quanto eu vinha dando um peso maior na minha vida para a dimensão de "realizações" comparado com a de "relacionamentos". Depois dessa reflexão, fiz algumas mudanças práticas de atitudes na minha vida.

Convido você a refletir sobre isso também:

Quanto você coloca da sua energia em alcançar conquistas comparado com viver e nutrir relacionamentos?

Aprender de onde pode vir paz e felicidade duradouras

Tem uma pergunta boa que aprendi no curso do Khe Hy:

O que te trará paz e felicidade duradouras?

Será aquela promoção no trabalho? Ou o relacionamento com as pessoas que você ama?

Um estudo científico de Harvard feito ao longo de 75 anos explorou esse tema. A pergunta feita pelo estudo foi:

O que nos mantém saudáveis e felizes ao longo da vida?"

No TED Talk sobre esse estudo, o professor começa falando:

Em uma pesquisa recente com a geração do millennials, perguntaram a eles quais eram seus objetivos de vida mais importantes. Mais de 80% disseram que um dos principais objetivos de sua vida era enriquecer. Outros 50% deles disseram que outro objetivo importante na vida era se tornar famoso.

Porém, depois de 75 anos de estudo, eles descobriram que a resposta não seria riqueza, fama ou trabalhar cada vez mais. O que eles concluíram foi:

O que nos mantém saudáveis e felizes ao longo da vida? Bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis.

Mais uma vez, quando a gente lê sobre isso, pode parecer óbvio e fazer sentido. Alguém pode dizer: "isso eu já sabia!". Porém, lembra da diferença entre a pessoa intelectual e a pessoa sábia?

Como o sabático é um período de calma, ele é uma condição mais favorável para que você possa deliberadamente buscar ser mais sábio, não só mais intelectual. Ou seja, alinhar suas atitudes com seu conhecimento, para entre outras coisas, ter paz e felicidade duradouras.

Quando o sabático deve acabar?

Essa foi uma pergunta que fiz pra mim: "quando devo terminar o meu sabático?".

Uma das respostas mais diretas é quando acabar o dinheiro. Você se planejou e separou dinheiro para isso, mas uma hora ele acaba né. Você pode até fazer um pouco de "trabático" (trabalho + sabático), o que vai te ajudar a gerar um pouco de renda para estender o seu sabático. Isso pode aliviar um pouco a questão financeira, mas existem outros motivos também para terminar um sabático.

Lembra que  sabático é um misto de período de calma, tédio e oportunidade? Se no seu sabático você está tendo tédio demais e calma e oportunidade de menos, talvez seja hora terminá-lo. Porém, atenção, porque o tédio é natural durante o sabático. E é dele que pode nascer uma espécie de "ócio reflexivo e criativo" que vai te ajudar a se desenvolver como pessoa de um modo diferente que aconteceria em uma rotina padrão.

Lembre que nós não fomos treinados para lidar com o tédio, fomos treinados para lidar com a "vida correria". Naturalmente nossa mente vai procurar coisas para se ocupar e direcionar sua atenção.

A ideia é conseguir identificar quando o sabático já não faz mais sentido para você, porque agora você desenvolveu novos sentidos. Mas se o sabático estiver desagradável porque está muito tedioso, não quer dizer que não faz mais sentido. Quer dizer apenas que você está com uma dificuldade natural de viver fora da sua zona de conforto.

E se a prática do sabático fosse um pouco mais próxima da regra do que da exceção?

Quantas pessoas você conhece que já fizeram um período sabático? Provavelmente nenhuma ou muito poucas. Apesar do sabático poder ser um período muito fértil em termos de desenvolvimento adulto, ele está mais para a exceção do que para a regra. Por que?

Claramente a questão financeira é um empecilho. É um grande e raro privilégio poder passar algumas semanas ou meses sem gerar renda e se sentir suficientemente seguro com isso.

Mas, pense nas pessoas que teriam condições financeiras de fazer um sabático... quantas fizeram? Eu arriscaria dizer que continuaria sendo nenhuma ou muito poucas. Partindo dessa premissa, a questão financeira não seria o fator determinante para uma baixa frequência de sabático.

Existe uma outra perspectiva para explicar isso: o sabático não faz parte do que entendemos como um curso de vida normal.

Porém o "normal" vem variando ao longo da história humana. Não estaria em tempo de variar mais um pouco o curso de vida "normal" da nossa sociedade?

Repensando o curso de vida

O relatório "Envelhecimento Ativo: Um Marco Político em Resposta à Revolução da Longevidade" fala um pouco sobre essa questão de mudanças no curso de vida padrão. A versão original desse estudo foi publicada em 2002 pela OMS (Organização Mundial da Saúde) com o objetivo de pensar como podemos viver melhor, não somente viver mais.

O relatório começa mostrando este curso de vida:

O que é um sabático? Pra que serve e o que você aprende com ele?
Curso de vida na era Bismarck (fonte: Envelhecimento Ativo: Um Marco Político em Resposta à Revolução da Longevidade)

Esse curso de vida teria começado no final do século XIX, a partir da construção do sistema previdenciário de Bismarck, em 1889. O curso de vida era dividido em três fases distintas: aprender (estudar) um pouco, seguido de trabalhar bastante, seguido de se aposentar e viver um pouquinho mais até morrer. Esse era um tipo de curso de vida normativo e padronizado cronologicamente. Uma característica importante do contexto onde ele começou era que a expectativa de vida do homem ainda estava abaixo dos 40 anos.

Porém ao longo do século XX tivemos o que o relatório chama de "revolução da longevidade". Agora vivemos bem mais! No Brasil, vivemos 30 anos mais! A expectativa de vida no nosso país saiu de 45 anos em 1940, para 76 anos em 2019. Junto com outros fatores, esse aumento significativo de anos de vida levou a mudanças no curso de vida. Agora teríamos um curso de vida um pouco mais dinâmico, algo assim:

O que é um sabático? Pra que serve e o que você aprende com ele?
Curso de vida de homens, atualmente (fonte: Envelhecimento Ativo: Um Marco Político em Resposta à Revolução da Longevidade)

Ainda assim, dá para perceber dois grandes blocos relativamente uniformes nesse curso de vida, em amarelo e em azul. Trabalha, trabalha, trabalha. Se aposenta, se aposenta, se aposenta.

O relatório propõe que para o século XXI, devemos pensar em mudanças, em continuar evoluindo o curso de vida da nossa sociedade. Evoluir para algo mais dinâmico, mais variado e mais individualizado. Algo assim:

O que é um sabático? Pra que serve e o que você aprende com ele?
Curso de vida de homens, no futuro (fonte: Envelhecimento Ativo: Um Marco Político em Resposta à Revolução da Longevidade)

O relatório fala:

As pessoas irão aprender, cuidar, trabalhar e devotar tempo a atividades recreativas ao longo de toda a vida com muito menos atenção à idade cronológica. As instituições precisam se adaptar às transformações culturais inerentes à Revolução da Longevidade, mas também os indivíduos devem se preparar para esses anos adicionais de vida que irão requerer maior versatilidade. A Revolução da Longevidade tem impactos retroativos ao longo do curso de vida - além do simples fato de enfrentar uma velhice mais longa.

Se você olhar novamente a figura acima, vai perceber que tem um sabático nesse curso de vida, coisa que não tinha nos dois anteriores.

No TED talk do Alexandre Kalache, o médico e diretor por trás desse relatório, ele começa falando:

Vamos viver 30 anos a mais que nossos avós, e daí?

E daí que talvez seja o momento de repensar o curso de vida. Com uma vida bem mais longa que as gerações anteriores, é necessário repensar o modo como levamos a vida. Ela não vai acabar mais em 45 anos, ela vai levar em média 76 anos. Provavelmente ainda mais que isso, dependendo do seu contexto e história de vida.

Ainda assim, vivemos com pressa, como se a vida fosse acabar rápido. Talvez seja uma memória inconsciente que herdamos de gerações passadas. Talvez seja a supervalorização da produção, em detrimento da contemplação, do ócio e do lazer.

Mas temos mais tempo! Podemos ter mais calma. Como ouvi o professor Alexandre Kalache dizer:

Quanto mais cedo melhor, nunca é tarde demais.

Não deveríamos precisar viver uma vida longa como essa no piloto automático. Cada um de nós sabe hoje bem mais do que sabia 10 anos atrás. Porém, às vezes não temos a oportunidade, ou não criamos a oportunidade de refletir sobre esse aprendizado. E sem uma pausa para reflexão, fica mais difícil de conseguir ir além de se tornar mais intelectual.

O sabático pode te ajudar a se tornar mais sábio. Mais saudável. Mais feliz. Mais autêntico. Mais humano.

Na essência, o sabático é um período de descanso, regeneração e transformação. Ele não tem regras. Não precisa levar meses, você não precisa viajar, você não precisa parar de trabalhar totalmente. Você faz dele o que é, afinal, somos "máquinas" de criar sentido para as coisas.

Mesmo que seja apenas um final de semana, ou duas semanas das suas férias, é possível fazer um sabático. Mas esteja aberto e curioso para a mistura de tédio e calma que vai te dar a oportunidade de se transformar. E quem sabe, viver uma vida mais sábia em direção aos novos sentidos que você descobrir.


Agradeço às pessoas que me ajudaram a fazer com que esse texto pudesse expressar meus pensamentos de forma mais clara. Lucas Oliva, Camila Ferreira, Juliana Gomes, Raphael Albino e Janaína Kovacs.

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<![CDATA[Como foi meu ano de 2021? Uma carta do meu eu futuro]]>https://hugobarauna.com/como-foi-meu-ano-de-2021-uma-carta-do-meu-eu-futuro/6005f8f794acf626f8393ce8Tue, 19 Jan 2021 13:25:24 GMT

Em 2020 eu pude ser feliz, apesar do contexto de dificuldades da pandemia. Porém, tive uma sensação de falta de direção em vários momentos, o que não foi agradável. Mas foi uma sensação natural, porque 2020 foi o primeiro ano sem a empresa que fundei e trabalhei por 11 anos da minha vida, a Plataformatec.

2020 foi também o ano que comecei um período sabático, o que marcou o início de uma jornada de transição pra mim.

No livro "Transitions: Making Sense Of Life's Changes", o autor descreve uma transição em três grandes etapas: um término, a zona neutra, um novo começo. Na zona neutra, você para por um tempo as atividades comuns da sua antiga rotina. É nesse lugar que existe a oportunidade de você expandir sua consciência, de modo que você depois possa enxergar a realidade sob uma nova perspectiva.

Porém é também na zona neutra que você sente uma sensação de vazio. Você não é nem aquela pessoa de antigamente, nem a pessoa que você ainda vai se tornar. Você está no meio, é quase um limbo. É um período muito engrandecedor, de epifanias. Mas também de preocupações e ansiedades.

Eu quero aproveitar ao máximo a minha zona neutra, não quero sair correndo dela. Mas também sinto que já posso começar a descobrir novas camadas do meu novo eu. E para integrar o mundo prático dentro disso tudo, resolvi pensar deliberadamente sobre minhas metas para 2021.

Em relação a metas, no passado já me perguntaram o que acho delas. Ter metas é bom? Pode ser, elas ajudam a te mover. Ter metas é ruim? Pode ser também, elas podem te fazer pensar que você só ficará satisfeito quando bater a meta, e te privar de apreciar a jornada. A verdade é que acho que podemos usar metas de modo que elas mais nos ajudem do que nos atrapalhem.

Por exemplo, não gosto de pensar em metas como ferramenta para definição de sucesso. Mas acredito que elas podem trazer clareza para as direções que você quer tomar. E tenho investido tempo nisso, em trazer clareza para as direções que quero tomar na vida.

Uma das pessoas que tem me influenciado sobre como pensar em metas é o Khe Hy. E resolvi fazer um exercício que ele propôs sobre metas, o exercício é o seguinte:

Suponha que seja 1º de janeiro de 2022. Você teve um excelente 2021. Escreva uma carta do seu eu futuro descrevendo como foi esse ano.

A ideia é que essa carta lhe faça refletir sobre as coisas que importam para você. Após desenvolver esse auto-conhecimento, você pode então usá-lo para definir as suas metas para o ano.

Abaixo segue a carta que o meu eu futuro de janeiro 2022 teria escrito pra mim, descrevendo como foi o meu ano de 2021.

Como é um texto bem pessoal, fiquei na dúvida se eu deveria publicar, não sabia se teria valor para outras pessoas. Porém eu já tinha escrito boa parte pra mim mesmo, então resolvi publicar.

Espero que essa carta faça você refletir e se inspirar a escrever sua própria carta do seu eu futuro. E espero que a sua carta te ajude a direcionar um excelente ano de 2021 para você.

Boa leitura. :)


01 de Janeiro de 2022

Querido Hugo,

2021 foi um ano muito bom para ti. Não porque bateste as metas que tinhas pensado, mas porque ficaste satisfeito com as experiências que tiveste e com as realizações que alcançaste.

Lembras daquele almoço com a família em dezembro de 2020? Vocês usaram aqueles cartões da The School of Life que tu tinhas comprado, aqueles que ajudam a ter conversas profundas e significativas. As conversas foram excelentes, foi um momento mágico! Pois é, tiveste mais disso em 2021. Te sentiste ainda mais conectado com as pessoas que te conhecem desde que nasceste.

Vocês riram juntos, choraram juntos e conheceram um pouco mais um do outro. Vocês se sentiram mais próximos. Não só porque lembraram das histórias que já tinham vivido muitos anos atrás, mas porque puderam compartilhar um pouco mais de quem vocês são hoje, além do que já foram no passado.

Falando de família, não tem como não falar da Mamãe e do Igor (meu irmão). O novo projeto profissional da Mamãe decolou em 2021! Ela teve vários desafios? Sim. Mas foi aquele tipo de demanda de trabalho que te faz crescer, não apenas se sentir "apequenado". É lindo ver a Mamãe com tanto propósito de vida! É engrandecedor ser capaz de vê-la como uma pessoa, além de Mãe. Ficaste muito feliz de poder ter ajudado ela nessa jornada, nesse novo sonho dela. Ela desenvolveu ainda mais sua autoconfiança, continuou trazendo bem-estar para os outros através do seu trabalho, e pôde aplicar ainda mais o seu toque especial de humanidade nas relações do dia a dia.

E o Igor... lembra que sentiste um fortalecimento na relação de irmão entre vocês no final de 2020 enquanto estiveste em Belém? Então, em 2021 vocês se aproximaram ainda mais. Vocês tiveram várias conversas ao longo do ano, tanto juntos presencialmente nas tuas visitas, quanto distantes pela internet. Ele em Belém, tu em São Paulo.

Nas vezes que viajaste para Belém, vocês repetiram aquele passeio de bicicleta para a praça Brasil, e tomaram aquele guaraná no meio do passeio, sentados na grama da praça. Criaram novos passeios também, vocês pedalaram até o parque do Utinga! Lá vocês pararam e ficaram mais de hora conversando sobre a vida, compartilhando experiências, "filosofando" e debatendo ideias e conceitos que vocês apreciam. Aquelas conversas que parecem que não tem sentido, mas que vocês gostam. Outras pessoas ficariam irritadas em ficar ouvindo essas conversas, então talvez isso seja algo especial só entre vocês dois. Foi gostoso descobrir novos assuntos de interesse comum para compartilhar nessa etapa da vida de vocês.

Com o Papai, vocês leram juntos alguns capítulos do livro que deste para ele em 2020, o "Grandes pensadores". Em 2021, deste outro livro para ele também, aquele livro do sabático que usa psicologia positiva. Talvez o livro tenha inspirado ele. Percebeste que ele continuou caminhando para uma versão melhor dele. Uma pessoa cada vez melhor para ele e para os outros. Teve também momentos de conversas legais entre ele, tu e o Igor. Conversas que em 2020 aprendeste a chamar de "conversas do eu profundo", naquele curso de "Como ter melhores conversas", da The School of Life.

Rolou também aquela "live" com a família toda que tu tinhas planejado. Lembraste que tem como estar mais próximo da família, mesmo estando fisicamente distante. Teu maior aprendizado foi: o que o faz a diferença na proximidade entre as pessoas não é a distância, mas sim a atitude. Separar tempo, energia e dedicação para organizar uma conversa diferente por videoconferência com a família inteira... isso pode trazer mais proximidade do que todo mundo almoçando juntos na mesma mesa, mas cada um olhando para seu celular e a mente voando para outro lugar.

Conseguiste aplicar teu novo conhecimento sobre felicidade, aquele do modelo PERMA da psicologia positiva. A ideia de se sentir feliz vivendo os relacionamentos com as pessoas que nós amamos. Refletiste sobre a diferença entre ter relacionamentos e viver relacionamentos.

Te lembraste como é paradoxal que justamente algumas das pessoas que mais amamos (nossos pais, irmãos e família) são aquelas pessoas com quem menos passamos tempo na vida adulta. Porém, conseguiste vencer um pouco esse paradoxo, colocando ação onde antes só havia desejo. Vocês passaram mais tempo de qualidade juntos.

Definitivamente foi um ano de família!

Mas no campo dos relacionamentos, você foi além disso. Teve também amigos.

Enquanto tu pensavas sobre tuas metas, no começo de 2021, tu tiveste a lembrança daquele almoço de "open house" no novo apartamento do Tiago, que rolou no ano anterior. Quando lembraste isso, veio aquele calor no peito, que te sinalizou que estar com ele naquele dia foi importante pra ti. Depois te lembraste também das mensagens que trocaste com o Boca por Whatsapp, ele te enviando músicas dos tempos em que vocês moravam juntos. Lembraste dos textos e áudios com a galera do smarketing da Ptec. Das conversas recorrentes com o Albino. E de tantos outros velhos e novos amigos. Tu lembraste da importância que as amizades tem pra ti, e foste além da lembrança. Aconteceram mais almoços e jantares, mais video calls, mais risadas e mais momentos juntos. Teve até uma vez que levaste aqueles cartões da The School of Life, que ajudam a ter conversas mais significativas. Funcionou com amigos também.

E o que dizer do teu casamento, da convivência e do amor com a Ana? Só de pensar nisso, já cai uma pequena lágrima de felicidade dos meus olhos agora. Parece inclusive que conseguiste desenvolver um pouquinho mais a gratidão, parabéns!

Se fosse saudável ter alguém que significa tudo para ti, essa pessoa seria a Ana. Foi com ela que continuaste descobrindo e compartilhando cada pedaço novo da tua existência e do teu aprendizado.

Ela continuou te inspirando. Vocês continuaram fazendo várias refeições veganas. Mas além disso, ela também te surpreendeu com novos comportamentos. Ela começou a ler ainda mais livros que não são de romance! Isso te trouxe felicidade e orgulho. Felicidade porque tu viste como ela estava curiosa e bem com essas leituras. Orgulhoso porque conseguiste ver um pouquinho de ti nela. Isso te fez acreditar que ela também aprende contigo, assim como tens aprendido tanto com ela. Que amor! Que sorte na vida que tiveste!

Se fosse "só" por isso, o teu ano já teria sido excelente. Mas acreditas que ainda teve mais!?

Tuas leituras, reflexões e desenvolvimento humano continuaram, fruto da sede que desenvolveste no sabático. Finalizaste a pós-graduação de psicologia positiva e te sentiste muito realizado com o TCC. As reflexões que fizeste transbordaram constantemente para o teu blog. Te sentiste um pouquinho mais sábio com cada texto escrito e o feedback que vinha dele. Essa sensação de mais alguns pequenos passos em direção a sabedoria te fez muito bem! E faz total sentido, já que aprendeste com o VIA que a tua principal virtude é a sabedoria. Foi autoconhecimento gerando bem-estar "na veia"!

Teu prazer em programar te levou também a explorar mais o Elixir. A Elixir Radar teve um ano muito bom! Conseguiste fechar o ano financeiramente no positivo, o que me possibilita agora em 2022 continuar essa jornada. O melhor? Foi com muito gosto! Teve um pouco de estresse? Sim. Mas aquele tipo de stress que te move. Enquanto tu te sentia estressado, veio a lembrança daquela curva de estresse do Daniel Goleman, que nem todo estresse é ruim. Pois é, em 2021 voltaste a "aplicar estresse" dentro dos teus objetivos como empreendedor, e te sentiste muito bem na jornada.

Hoje com o benefício de poder olhar para trás, dá para tirar um aprendizado muito importante. Tuas novas realizações no mundo do trabalho te fizeram lembrar que não precisas lastrear teu senso de segurança no que tens acumulado de economias. Tua segurança mais verdadeira vem no que tens dentro de ti e das relações que construíste ao longo da vida. Do teu conhecimento, tuas atitudes, tua família, teus amigos e teus parceiros de trabalho. Terminaste o ano acreditando um pouquinho mais que se tu tivesses que "começar do zero", conseguirias ficar bem novamente. Podes te sentir seguro e livre, não pelo que tens, mas pelo que és.

Ah, sobre aquela história de perder mais um pouco de peso, conseguiste chegar aos 72 Kg. A motivação original (teórica) era sobre ter uma saúde física boa, e usar o IMC como indicador para isso. Bom, chegaste no número, mas ainda sim não pareces estar satisfeito. Então fica a pergunta: "quando vai ser o suficiente?". Pelo menos essa pergunta não te deixa mais assombrado ou ansioso. Agora ela te ajuda a jogar luz sobre uma parte da tua vida que parece ainda ter bastante oportunidade para descobrires a verdade.

Para finalizar, lembra daquela ideia de andar mais de bicicleta? Rolou sim! Andar de bicicleta voltou a ser uma atividade de lazer individual e também em casal. Foi bom para te lembrares que andar de bicicleta tem muitos significados pra ti: saúde, paz, diversão, desafio e liberdade. Também para ter aquele tipo de situação onde se aproveita os pequenos prazeres da vida: aquela sensação aventureira de velocidade e o prazer do vento no rosto. Pensaste: "como eu tinha deixado de fazer algo que me deixa bem em tantas dimensões?".

Teus passeios de bicicleta te lembraram também da metáfora sobre equilíbrio, aquela que leste na Vida Simples. Na bicicleta não tem como se equilibrar se tu estiveres parado. Na vida é a mesma coisa, para ter equilíbrio tu precisas estar se movimentando.

Acho até que Aristóteles falava algo assim sobre equilíbrio. Se me lembro bem, ele dizia que para ser feliz, precisa ser virtuoso. E a virtude está no equilíbrio entre dois extremos. Por exemplo, na virtude da coragem, se você tiver em excesso, é imprudência, se tiver em falta, é covardia.

Então na vida é importante ter equilíbrio, assim como na bicicleta. E 2021 foi um ano de equilíbrio, sabedoria e felicidade pra ti e para as pessoas ao teu redor.

Parabéns pelo que conseguiste. E gratidão por aquilo que aconteceu.

Com amor,

-- Hugo Baraúna


Agradeço às pessoas que me motivaram e me ajudaram a fazer com que esse texto pudesse expressar meus pensamentos de forma mais clara. Minha esposa, Ana Raquel. Minha Mãe, Lilian Pessoa. Minha tia, Lenice Pessoa. Meus amigos e amigas, Lucas Oliva e Camila Ferreira.

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<![CDATA[More time or more money?]]>https://hugobarauna.com/more-time-or-more-money/5fc5057394acf626f8393b96Mon, 30 Nov 2020 19:52:16 GMT

A few months ago I asked this question on my Twitter and LinkedIn and I was surprised with the answer:

If you could choose between a salary raise or keep your current salary and work fewer hours a week, what would you choose?

In both networks, more than half of the people who responded prefer to keep their current salary and work fewer hours instead of receiving a salary raise and maintaining the current workload.

What does that mean?

Why are there people who prefer more time than money?

Why are there people who prefer more money than more time?

Over the last 12 months, I've been thinking about this. I've read a lot of books, taken courses, talked to people, made reflections. And I've come up with some thoughts that I want to put out and share with you.

Why do we seek more money?

My hypothesis was that most people prefer more money than more time. Curiously, my little "research" revealed the opposite.

Of course this research is not representative of the population, the sample has a bias in the direction from people of my social networks. But even so, I imagined that the majority would be following the "adult life pattern path": searching for more money. I was positively surprised to be proved wrong, at least in this microcosm of mine.

Still, a good part said that if they had the choice, they would choose more money than more time. Why does someone look for more money? In short, I would say you have two answers:

  1. Because you need more money
  2. Because you think you need more money

My concern, in this article, is with who is in category 2.

The point here is not whether money brings happiness or not. My concern is about the person being able to think and decide more according to their own criteria, and less about what was deposited in his/her head in an almost unconscious way (like an inception, for those who saw the movie).

Let's see two reasons why people seek more money, without being aware of it.

We seek more money because of status

One of the reasons we seek more money unconsciously is status. This idea became clear to me after reading the book "Status Anxiety" by philosopher Alain De Botton.

According to the author:

Status is one's position in society. In a narrow sense, the word refers to one’s legal or professional standing within a group (married, a lieutenant, etc.). But in the broader -- and here more relevant -- sense, to one’s value and importance in the eyes of the world

Status is not something natural, it is a social and human convention. It is also not immutable, it has varied throughout human history: to be a hunter, to be a warrior, to be of a certain family, to be part of the clergy of the church, etc. But over the last centuries, more and more having status has to do with having money and financial achievements.

And why do we seek status?

Well, having more status can bring you some benefits. Who has more status receives more attention from other people, they see you differently, as if you had more value. And many of us are insecure about our own value as human beings, so we derive our sense of self-esteem through what others think of us.

If we have more money, we have more status. If we have more status, others give us more value. If others value us more, then we value ourselves more.

It happens that building your self-esteem based on what others think about you is very fragile. I would say even dangerous.

For those who are watching "The Boys" show on Amazon Prime, you can think about Homelander's self-esteem, it's totally based on what people in social networks think about him.

We seek more money because we became prisoners of our lifestyle

Some think they need more money to support a certain lifestyle. By supporting your lifestyle, I mean where you spend your money.

The problem I want to point out here is not where you spend your money. But how much of your money you spend and why.

Let's say you got a job in your early 20s. With every increase in income since then, what has happened to your spending? Have they gone up? Probably. So far so good.

The potential problem is if most of the time your income has gone up, your expenses have gone up proportionally together. I say potential problem because maybe they went up out of necessity, maybe you had a child. The real problem can happen when your expenses have risen more due to desire than need. And here I want to bring a concept that I learned from Epicurus' philosophy.

Epicurus said that we confuse our desires and needs. Need is for example food, shelter, friends. Desire can be power, fame, a big apartment, the iPhone of the year, the car your friend has.

If every time you manage to increase your income, you increase your expenses, you become a hostage of your own salary. A hostage of his own salary feels that he has no option but to have a way to maintain his income at any cost, because if the income is lower, he believes that his life would be bad.

The risk here is the person losing his freedom. She no longer has the freedom to make less money, she is "forced" by her desires to maintain that level of income or more. A trap she has created for herself, often without realizing it. Whatever the reason.

It could be, for example, because she has not paused to discern between need and desire. It may be because she tried to replace a void in her life with some possession or experience that money can buy.

She became a hostage to her own salary.

Why would I want more time?

Going back to the poll results on my social networks, most people responded that they would rather work less than receive a salary raise. Why would that be?

I can think of some possibilities.

Time to develop as a professional

Perhaps this is the easiest reason to rationalize. The person would like more time to develop a competence.

For many, learning is a source of pleasure. For me it certainly is. A potential problem is that investing time in developing a competence for the job competes with the time of other activities outside of work.

We can divide our time into:

  • leisure activities (cycling, watching Netflix)
  • productive activities (working, studying)
  • maintenance activities (bathing, eating)

For many of us, work is at the center of our lives and we fit the rest into the time that remains. Ok, that's life. But does it have to be like this?

So you want to develop a professional competence, either because you like it or because you need it. But for that to happen, you'll have to take even more time from leisure activities or maintenance. Less time for a hobby. Or what many of us do, less time to sleep.

What if you could work less? Then you could use the extra time to develop yourself professionally, compromising less the time of other aspects of your life. Wouldn't that be nice?

Someone reading this text might say: "phew, but that's paradoxical... I'll work less, and with the time left over I'll invest in things that will make me better at work?!". Yes, each one does what they want according to their values and their life history. Many people see things that way, and it's all right, it's the way the person sees.

I used to think the same way: "work is where I get most of my sense of accomplishment and purpose in life". It happened that with a little extra time, I could reflect and expand my consciousness.

This takes me to another place where you could use more free time: to develop as a person, not only as a professional.

Time to develop as a person

One of the times I realized that I was clearly developing as a person was by attending lectures on feminism, diversity and inclusion at Plataformatec (my former company). The ideas and new beliefs I had from those pinches of education clearly made me a better person, inside and outside of work.

Another time was when, during my sabbatical, I read a book called "The Course of Love", also by the philosopher Alain de Botton. The book talks about love between a couple, and suggests a disruptive and inspiring idea to me: "love is more skill than enthusiasm".

He explains by A + B the risks of that vision of romantic love, of the idea of finding the perfect person for you. The truth is that neither person in a marriage is perfect for each other.

I learned from this book that "love is the admiration for the qualities of the loved one that promises to correct our weaknesses and our imbalances". It is part of love to be someone imperfect, but also to be inspired by the other person to become a better individual. In this sense, the love relationship between a couple is about being the partner of the other on a journey of mutual personal development. Look how beautiful that is!

After reading this book, I believe I developed as a husband. I have developed as a person.

In my case, the increase of space in my mind to have the interest and attitude to read that kind of book only happened when I had more time out of work. Less stress and demand from work allowed me to think more about the other important things in my life.

When we think about people development, we usually remember about HR, career, professional development. But developing ourselves can go much further than just becoming a professional of excellence. How about becoming a "person of excellence"?

This idea is inspired by Aristotle's philosophy. He said that a good path for life is to become a virtuous person, a person of virtues. And virtue goes far beyond work skills. How about caring more about being a virtuous person than of being a financially rich person? Virtue is certainly closer to everyone's reach compared to financial wealth.

We think that being a friend, being a father, being a mother, being a son, being a brother, being a citizen, being a husband, being a wife, etc is simply being. That we are already born with an innate ability to play such important roles in our lives. We don't pay as much attention to developing ourselves within these areas as we do to develop ourselves as professionals.

Imagine how many opportunities we would have to develop as a better human being if we had a little more time outside of work.

Time to learn what I don't know that I don't know

Finally, having more free time allows you to learn more about what you don't know that you don't know, the unknown unknowns (about yourself, about others and about the world).

In my case, I discovered that I didn't know "how to do nothing". I even read a book about it earlier this year called "How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy" by the artist and Stanford teacher Jenny Odell.

Sometimes my wife would tell me "you work too hard". But I didn't understand what she meant, it didn't make sense to me. Although I am an entrepreneur, I never bought the idea of that stereotype that an entrepreneur has to work an absurd amount of hours. I always tried to work something around 40 hours a week, a standard workload. What she wanted to say to me was in the field of my unknown unknowns, was beyond my comprehension.

Only after reading the books "How to do nothing" and "Burnout Society", reflecting, meditating, and after many therapy sessions, I was able to understand what she meant.

I realized that although I worked "only" 40 hours per week, my mind was always connected to and driven by work, even when I was "not working". At home, the books I read were always to help me solve problems I found at work. At dinner, I sometimes found myself thinking about work instead of being present with the person I love.

My problem was that I unconsciously saw time as an economic resource that I should exploit to the full to produce. I lived to produce, inside and outside of work, but I was not aware of it.

With more free time, I could understand that about myself.  I could also learn more about other things you can do with your time besides producing. For example, you can do contemplative activities, like meditation.

You begin to stop thinking "I'm wasting my time". You stop thinking that "time is money", that you have to optimize your time. That you have to know all the productivity hacks and get the most out of your time.

Do you know where this idea of optimizing something and getting the most out of it applies? On a machine, in a factory. You're not a machine inside a factory that needs to be optimized. Neither inside nor outside work.

I confess I'm still learning to live under these new ideas, it's not easy for me. And I believe it's not easy for us as a capitalist society, where we were led to believe that we should produce to the maximum during all our time awake.

The current number of working hours is not natural, it is a convention

Some people reading about this idea of working less may find it impossible. Utopian. That it will never happen.

For those people, I invite you to take a look at the past and also the present. And based on this observation, reflect: "Do we work 40 hours a week because it is naturally like this or because it is like this today?

There's a difference between something that is naturally like it is and something that is the way it's because someone made it that way. It's easier to change something that was made up than something that is naturally like it is.

First, let's look briefly at the past. It's been a little over 100 years since we started regulating the number of working hours in Brazil. Before that, some people worked more than 14 hours a day in industries! Nowadays, the common workload is 40 hours a week. It has changed. The current number of working hours is not natural, it's a convention.

Looking now to the present, there are already companies experimenting with different forms of working hours. Let's go to some examples.

Wildbit has a working policy of 4 working days per week, 32 hours per week. They are a small American software products company, with 20 years old.

Microsoft Japan tested a 4 days working week in 2019.

Another very inspiring case for me came from Brazil: Ricardo Semler from SEMCO. In this TED Talk, he spoke:

When we look at the way we distribute our life, we realize that in periods where we have more money, we have less time. And when we finally have time, we have neither the money nor health.
This whole retirement thing... instead of you going to climb a mountain when you are 82 years old, why don't you go next week?

So they created a program in which the employee could "retire" throughout his whole life, not only at the end of his life. Who wanted to join the program, could stop working on Wednesdays, in exchange for 10% less salary.

They thought that the people who would join the program would be older. But the average age of the first people who joined was 29. Interesting, right?!

These people and companies are already challenging the current number of working hours. They understand that the working day as it is today is not something natural. It is a convention that can be modified.

And how can all this be used for your company?

To conclude, I would like to make an invitation to you: to think about why a company would have a shorter working day program.

From a business perspective, it can be an excellent way of differentiation for the employer brand. More and more people are talking about the shortage of skilled labor, and this only tends to increase.

Companies (especially in my world, software companies) try to differentiate themselves in every way to attract and retain people. High wages, remote work, ping-pong tables, video games, informal work environment, etc.

But don't you get the impression that all this is already becoming "commonplace"?

Despite the good intention, the company could offer its employees something much more valuable. Perhaps one of life's most valuable things: time. Now, that would be a totally different benefit!

But offering this benefit doesn't require only financial capacity from the company. It also requires courage and an expansion of perspectives of the company's mission.

A standard and modern company will say that it is client-centered. That the client is everything. That helping the client is their mission. That's what you'll find in most of a company's public communication. It's something you can see from the outside.

From the inside, many of the decisions are driven by another stakeholder: the shareholders. After all, this is what is taught (and what I learned) in business schools and MBA courses: the purpose of a company is to give financial return to its shareholders.

Then, only after clients and shareholders, there are employees. The curious thing to me is that the employees are the ones who spend more time in their lives interacting with the company. At least one-third of their day, five days a week.

This is where the courage and expansion of perspectives of the company's mission come in.

What if the company wanted to revolutionize the way it impacts its employees as much as it wants to revolutionize the life of its customers?

Does a shorter workday seem disruptive to you? To me, it seems a lot! We're used to hearing the company saying it wants to revolutionize its market, which I call revolutionizing their outside world.

What if it wanted to revolutionize its inside world?

What if the company's mission would go beyond maximizing profits for its shareholders and the success of its customer? What if it was also about maximizing the well-being of its employees?

That's the kind of courage and expansion of perspectives I'm talking about. It would be that kind of intrinsic motivation that could lead a company to reduce the workday. Not only to be more attractive to talents, but because its mission is also to maximize the well-being of its employees.


Thank you to everyone who contributed to this post. My wife, Ana Raquel. My friends: Lucas Oliva, Camila Ferreira, Juliana Gomes and Raphael Albino.

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<![CDATA[Mais dinheiro ou mais tempo?]]>https://hugobarauna.com/mais-dinheiro-ou-mais-tempo/5f9b05a399b9e9364cf5706bThu, 29 Oct 2020 18:42:12 GMT

Alguns meses atrás eu fiz esta pergunta no meu Twitter e LinkedIn e me surpreendi com a resposta:

Se você pudesse escolher entre um aumento salarial ou manter o salário atual e trabalhar menos horas por semana, o que você escolheria?

Nas duas redes, mais da metade das pessoas que responderam preferem manter o salário atual e trabalhar menos horas ao invés de receber um aumento e manter a carga horária atual de trabalho.

O que isso quer dizer?

Por que tem pessoas que preferem mais tempo do que dinheiro?

Por que tem pessoas que preferem mais dinheiro do que mais tempo?

Ao longo dos últimos 12 meses eu venho pensando sobre isso. Li uma série de livros, fiz cursos, conversei com pessoas, fiz reflexões. E cheguei em alguns pensamentos que quero colocar pra fora e compartilhar com você.

Por que a gente busca mais dinheiro?

Minha hipótese era que a maioria das pessoas preferem mais dinheiro do que mais tempo. Curiosamente, a minha pequena "pesquisa" revelou o contrário.

Claro que essa pesquisa não é representativa da população, a amostra tem um viés de ser direcionada por pessoas das minhas redes sociais. Mas mesmo assim, eu imaginava que a maioria estaria seguindo o caminho "padrão da vida adulta": busca por mais dinheiro. Fiquei positivamente surpreso em ser provado errado, pelo menos nesse meu microcosmo.

Ainda assim, uma boa parte disse que se tivesse a escolha, escolheria mais dinheiro. Por que alguém busca mais dinheiro? Em resumo, eu diria que tem duas respostas:

  1. Porque precisa de mais dinheiro
  2. Porque acha que precisa de mais dinheiro

Minha preocupação, neste artigo, é com quem está na categoria 2.

A questão aqui não é se dinheiro traz felicidade ou não. Minha preocupação é sobre a pessoa poder pensar e decidir mais de acordo com seus próprios critérios, e menos pelo que foi depositado na cabeça dela de forma quase inconsciente (tipo inception, para quem viu o filme).

Vamos ver dois motivos do porquê as pessoas buscam mais dinheiro, sem estar consciente disso.

Buscamos mais dinheiro por causa de status

Um dos motivos que nos faz buscar mais dinheiro de modo inconsciente é status. Essa ideia ficou clara para mim depois de ler o livro "Desejo de status", do filósofo Alain De Botton.

Segundo o autor, status é a posição que alguém tem dentro da sociedade. De modo mais restrito, é sobre a posição que você tem dentro de um grupo (família, amigos, empresa, cidade, país etc). De modo mais amplo, é sobre o valor e importância que você tem perante os olhos dos outros.

Status não é algo natural, é uma convenção social e humana. Também não é imutável, ele variou ao longo da história da humanidade: ser um caçador, ser um guerreiro, ser de uma certa família, ser parte do clero da igreja etc. Porém ao longo dos últimos séculos, cada vez mais ter status tem relação com ter dinheiro e com conquistas financeiras.

E por que buscamos status?

Bom, ter mais status pode trazer alguns benefícios para você. Quem tem mais status recebe mais atenção das outras pessoas, elas te vêem diferente, como se você tivesse mais valor. E muitos de nós somos inseguros sobre nosso próprio valor como ser humano, daí derivamos nosso senso de autoestima através do que os outros pensam de nós.

Se temos mais dinheiro, temos mais status. Se temos mais status, os outros nos atribuem mais valor. Se os outros nos atribuem mais valor, então nós nos atribuímos mais valor.

Acontece que construir sua autoestima baseado no que os outros pensam sobre você é muito frágil. Eu diria até perigoso.

Para quem está assistindo a série "The Boys" no Amazon Prime, pode pensar na autoestima do Homelander, ela é totalmente baseada no que as pessoas nas redes sociais acham dele.

Buscamos mais dinheiro porque nos tornamos prisioneiros do nosso estilo de vida

Há também aqueles que acham que precisam de mais dinheiro para sustentar um certo estilo de vida. Por sustentar seu estilo de vida, quero dizer onde você gasta seu dinheiro.

O problema que quero apontar aqui não é onde você gasta seu dinheiro. Mas quanto do seu dinheiro você gasta e o porquê.

Digamos que você conseguiu um emprego no começo dos seus vinte anos de idade. A cada aumento de renda desde então, o que aconteceu com seus gastos? Subiram? Provavelmente. Até aí ok.

O potencial problema é se na maioria das vezes que sua renda subiu, seus gastos subiram proporcionalmente juntos. Eu digo potencial problema porque talvez eles subiram por uma necessidade, talvez você tenha tido um filho. O problema real pode acontecer quando seus gastos subiram mais devido a desejos do que necessidades. E aqui eu quero trazer um conceito que aprendi com a filosofia de Epicuro.

Epicuro dizia que a gente confunde nossos desejos e necessidades. Necessidade é por exemplo alimento, abrigo, amigos. Desejo pode ser poder, fama, um apartamento grande, o iPhone do ano, o carro que seu amigo tem.

Se toda vez que você conseguir aumentar sua renda, você aumentar suas despesas, você se torna um refém do seu próprio salário. O refém do seu próprio salário sente que não tem opção a não ser dar um jeito de manter aquela renda a qualquer custo, pois se a renda for menor, ele acredita que sua vida seria ruim.

O risco aqui é a pessoa perder sua liberdade. Ela deixa de ter a liberdade de poder fazer menos dinheiro, ela é "obrigada" pelos seus desejos a manter aquele nível de renda ou mais. Uma armadilha que ela criou para si mesma, muitas vezes sem perceber. Seja qual for o motivo.

Pode ser, por exemplo, porque não parou para discernir necessidade de desejo. Pode ser porque tentou substituir algum vazio da sua vida com alguma posse ou experiência que o dinheiro pode comprar.

Ela virou refém do seu próprio salário.

Para que vou querer mais tempo?

Voltando para o resultado da enquete nas minhas redes sociais, a maioria das pessoas responderam que prefeririam trabalhar menos do que receber um aumento salarial. Por que será?

Consigo pensar em algumas possibilidades.

Tempo para se desenvolver como profissional

Talvez esse seja o motivo mais fácil de racionalizar. A pessoa gostaria de ter mais tempo para desenvolver uma competência.

Para muitos, aprender é uma fonte de prazer. Pra mim com certeza é. Um potencial problema é que investir tempo em desenvolver uma competência para o trabalho compete com o tempo de outras atividades fora do trabalho.

Podemos dividir nosso tempo em:

  • atividades de lazer (andar de bicicleta, ver Netflix)
  • atividades produtivas (trabalhar, estudar)
  • atividades de manutenção (tomar banho, comer)

Para muitos de nós, o trabalho está no centro da nossa vida e a gente vai encaixando o restante no tempo que sobra. Ok, é a vida né. Mas tem que ser assim?

Daí você quer desenvolver uma competência profissional, seja porque gosta, seja porque precisa. Mas para isso acontecer, você vai ter que tirar ainda mais tempo de atividades de lazer ou de manutenção. Menos tempo para um hobby. Ou o que muitos de nós fazemos, menos tempo para dormir.

E se você pudesse trabalhar menos? Daí poderia usar o tempo extra para se desenvolver profissionalmente, comprometendo menos o tempo dos outros aspectos da sua vida. Não seria legal?

Alguém lendo esse texto pode dizer: "pera, mas isso é paradoxal... vou trabalhar menos, e com o tempo que sobrar eu vou investir em coisas que vão me fazer melhor no trabalho?!". Sim, cada um faz o que quer segundo seus valores e seu repertório de vida. Muita gente vê as coisas desse modo, e está tudo bem, é o modo como a pessoa vê.

Eu mesmo pensava nessa linha: "trabalho é de onde eu derivo grande parte do meu senso de realização na vida". Acontece que com um pouco de tempo extra, pude refletir e expandir meus pensamentos.

O que me leva para outro lugar onde você poderia usar mais tempo livre: se desenvolver como pessoa, não só como profissional.

Tempo para se desenvolver como pessoa

Uma das vezes que eu percebi que estava claramente me desenvolvendo como pessoa foi ao assistir palestras sobre feminismo, diversidade e inclusão na Plataformatec. As ideias e novas crenças que tive a partir dessas pitadas de educação claramente me tornaram uma pessoa melhor, dentro e fora do trabalho.

Depois, já durante meu sabático, eu li um livro chamado "Curso do amor", também do filósofo Alain de Botton. O livro fala sobre o amor entre um casal, e sugere uma ideia disruptiva e inspiradora pra mim: "amor é mais habilidade do que entusiasmo".

Ele explica por A + B os riscos daquela visão de amor romântico, da ideia de buscar uma pessoa perfeita para você. A verdade é que nenhuma das pessoas em um casamento é perfeita para a outra.

Aprendi com esse livro que "amor é a admiração pelas qualidades do ser amado que prometem corrigir nossas fraquezas e nossos desequilíbrios". Faz parte do amor ser alguém imperfeito, mas também se inspirar na outra pessoa para se tornar um indivíduo melhor. Nesse sentido a relação de amor entre casal é sobre um ser parceiro do outro em uma jornada de desenvolvimento pessoal mútua. Olha que lindo!

Depois de ler esse livro, acredito que me desenvolvi como marido. Me desenvolvi como pessoa.

No meu caso, o aumento de espaço na minha mente para ter interesse e atitude de ler esse tipo de livro só aconteceu quando eu tive mais tempo fora do trabalho. Menos estresse e demanda do trabalho me permitiu pensar mais sobre as outras coisas importantes da minha vida.

Quando pensamos em desenvolvimento de pessoas, logo nos remetemos a ideia de RH, de carreira, de desenvolvimento profissional. Mas se desenvolver pode ir muito além do que apenas se tornar um profissional de excelência. Que tal se tornar uma "pessoa de excelência"?

Essa ideia é inspirada na filosofia de Aristóteles. Ele dizia que um bom caminho para a vida é se tornar uma pessoa virtuosa, uma pessoa de virtudes. E virtudes vai muito além de competência para o trabalho. Que tal ter como direcionamento de vida ser uma pessoa virtuosa ao invés de ser uma pessoa financeiramente rica? A virtude com certeza está mais próxima do alcance de todos do que a riqueza financeira.

A gente acha que ser amigo, ser pai, ser mãe, ser filho, ser irmão, ser cidadão, ser marido, ser esposa etc é simplesmente ser. Que já nascemos com uma habilidade inata em desempenhar esses papéis tão importantes nas nossas vidas. Não damos tanto atenção para nos desenvolvermos dentro desses âmbitos tanto quanto damos para nos desenvolvermos como profissionais.

Imagina o quanto de oportunidades não teríamos para nos desenvolver como um ser humano melhor se tivéssemos um pouco mais de tempo fora do trabalho.

Tempo para aprender o que eu não sei que eu não sei

Por fim, ter mais tempo livre lhe permite a aprender mais sobre aquilo que você não sabe que você não sabe (sobre você, sobre os outros e sobre o mundo).

No meu caso, eu descobri que eu não sabia "fazer nada". Até li um livro no começo do ano sobre isso, se chama "How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy", da artista e professora de Stanford Jenny Odell.

Por vezes, minha esposa me falava "tu trabalhas muito". Mas eu não entendia o que ela queria dizer, não fazia sentido pra mim. Apesar de empreendedor, nunca comprei a ideia daquele estereótipo que empresário tem que trabalhar um volume absurdo de horas. Eu sempre me esforcei para trabalhar algo por volta de 40 horas por semana, a carga horária padrão da CLT. Mas o que ela queria dizer para mim estava no campo das coisas que eu não sabia que eu não sabia, estava além da minha compreensão.

Só depois de ler os livros "How to do nothing" e "Sociedade do cansaço", de refletir, meditar, e de muitas sessões de terapia, eu fui capaz de compreender o que ela queria dizer.

Percebi que apesar de trabalhar "apenas" uma carga de 40 horas por semana, minha mente continuava conectada e direcionada pelo trabalho, mesmo enquanto eu "não estava trabalhando". Em casa, os livros que eu lia eram sempre para me ajudar a resolver problemas que eu encontrava no trabalho. No jantar, às vezes me pegava pensando no trabalho, ao invés de estar presente com a pessoa que eu amo.

Meu problema era que eu inconscientemente enxergava o tempo como um recurso econômico que eu deveria explorar ao máximo para produzir. Eu vivia para produzir, dentro e fora do trabalho, mas eu não tinha consciência disso.

Com mais tempo livre, eu pude descobrir que existem outras coisas que você pode fazer com o seu tempo além de produzir. Por exemplo, você pode fazer atividades contemplativas, como meditar.

Você começa a deixar de pensar "estou perdendo meu tempo". Você para de pensar que "tempo é dinheiro", que você tem que otimizar seu tempo. Que você tem que saber todos os hacks de produtividade e tirar o máximo possível de você.

Sabe onde se aplica essa ideia de otimizar algo e tirar o máximo de retorno dela? Em uma máquina, em uma fábrica. Você não é uma máquina dentro de uma fábrica que precisa ser otimizada. Nem dentro nem fora do trabalho.

Confesso que ainda estou aprendendo a viver sob essas novas ideias, não é fácil pra mim. E acredito que não deve ser fácil para nós como sociedade capitalista, que fomos levados a acreditar que devemos produzir ao máximo durante todo nosso tempo acordados.

A carga horária de trabalho atual não é natural, ela é uma convenção

Algumas pessoas lendo sobre essa ideia de trabalhar menos podem achar que isso é impossível. Utópico. Que nunca vai acontecer etc.

Para essas pessoas, convido a dar uma olhada para o passado e também para o presente. E baseado nessa observação, refletir: "trabalhamos 40 horas por semana porque é assim ou porque está assim hoje?"

Ser é muito diferente de estar. É mais fácil mudar algo que está, do que algo que é.

Primeiro, vamos olhar brevemente para o passado. Faz pouco mais de 100 anos que começamos a regulamentar a  jornada de trabalho no Brasil. Antes disso alguns trabalhadores chegavam a trabalhar mais de 14 horas por dia nas indústrias! Hoje, estamos mais para as 40 horas por semana. Mudou. A jornada de trabalho não é natural, é uma convenção, um combinado.

Olhando agora para o presente, já existem empresas experimentando diferentes formas de jornada de trabalho. Vamos para alguns exemplos.

A Wildbit tem uma política de jornada de 4 dias de trabalho por semana, 32 horas por semana. Ela é uma empresa americana de pequeno porte, de produtos de software, com 20 anos de idade.

A Microsoft Japão testou uma jornada de 4 dias de trabalho por semana em 2019.

Um outro caso muito inspirador pra mim veio do Brasil: Ricardo Semler da SEMCO. Neste TED Talk, ele falou:

Quando olhamos para o modo como distribuímos a nossa vida, percebemos que nos períodos onde temos muito dinheiro, nós temos pouco tempo. E quando finalmente nós temos tempo, não temos dinheiro, nem saúde.
Essa questão toda de aposentadoria... ao invés de você ir escalar uma montanha quando você tiver 82 anos, por que você não vai na semana que vem?

Então eles criaram um programa no qual o funcionário poderia "se aposentar" ao longo da vida inteira, não só no final da vida. Quem quisesse aderir ao programa, poderia não trabalhar de quarta-feira, em troca de 10% a menos de salário.

Eles pensavam que as pessoas que iriam aderir ao programa seriam pessoas mais velhas. Mas a idade média das primeiras pessoas que aderiram foi 29 anos. Interessante né?!

Essas pessoas e empresas já estão desafiando a jornada de trabalho. Elas entendem que a jornada de trabalho como é hoje não é algo natural. É uma convenção que pode ser modificada.

E como isso tudo pode ser usado para sua empresa?

Para finalizar, eu gostaria de fazer um convite para você: pensar sobre por que uma empresa teria um programa de uma jornada de trabalho menor.

Sob uma óptica mais de negócios, pode ser um excelente modo de diferenciação para a marca empregadora. Cada vez mais se fala da escassez de mão de obra qualificada, e isso só tende a aumentar.

As empresas (principalmente no meu mundo, de tecnologia) tentam se diferenciar de todos os modos para atrair e reter pessoas. Salários altos, trabalho remoto, mesas de ping-pong, videogame, ambiente informal de trabalho etc.

Mas você não tem a impressão que isso tudo já está ficando um "lugar comum"?

Apesar da boa intenção, a empresa poderia oferecer para seus funcionários algo muito mais valioso. Talvez uma das coisas mais valiosas da vida: tempo. Esse sim seria um benefício totalmente diferente.

E eu diria que oferecer esse benefício não requer apenas capacidade financeira da empresa. Requer também coragem e uma expansão de perspectivas da missão da empresa.

Uma empresa padrão e moderna vai dizer que é centrada no cliente. Que o cliente está a frente de tudo. Que ajudar o cliente é a sua missão. É isso que você vai encontrar em boa parte da comunicação pública de uma empresa. É algo que você pode ver da "porta para fora."

Da "porta para dentro", muitas das decisões são direcionadas por outro stakeholder: os acionistas. Afinal, é isso que se ensina (e o que aprendi) nas escolas de negócio e cursos de MBA afora: a função de uma empresa é dar retorno financeiro para seus acionistas.

Daí depois de clientes e acionistas, sobram os funcionários. O curioso pra mim é que justamente os funcionários são as pessoas que mais tempo da sua vida passam interagindo com a empresa. Pelo menos um terço do seu dia, 5 dias por semana.

É aqui que entra a parte de coragem e expansão de perspectivas da missão da empresa.

E se a empresa quisesse revolucionar a forma como ela impacta o seu funcionário, tanto quanto ela quer revolucionar a vida do seu cliente?

Uma jornada de trabalho menor parece disruptiva para você? Pra mim parece bastante! Estamos acostumados a ouvir a empresa dizendo que quer revolucionar seu mercado, o que chamo de revolucionar da porta para fora.

E se ela quisesse revolucionar da porta para dentro?

E se a missão da empresa fosse além de maximizar os lucros para seus acionistas e o sucesso do seu cliente, fosse também maximizar o bem-estar dos seus funcionários?

Esse é o tipo de coragem e expansão de perspectivas que estou falando. Seria o tipo de motivação intrínseca que poderia levar uma empresa a reduzir a jornada de trabalho. Não só para ser mais atrativa para talentos, mas porque ela tem como missão maximizar o bem-estar das suas pessoas, dos seus funcionários. Ou como ouvi de um amigo esses dias, do "seu povo".


Agradeço às pessoas que me ajudaram a fazer com que esse texto pudesse expressar meus pensamentos de forma mais clara. Minha esposa, Ana Raquel. Meus amigos e minhas amigas: Lucas Oliva, Camila Ferreira, Juliana Gomes e Raphael Albino.

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<![CDATA[Expandindo a visão sobre gestão de empresas]]>https://hugobarauna.com/expandindo-a-visao-sobre-gestao-de-empresas/5f4d109d99b9e9364cf57021Mon, 31 Aug 2020 15:06:41 GMT

Como um engenheiro, sempre gostei de usar o conceito de "máquina" para   estruturação da minha antiga empresa. Era natural pra mim.

Quando fui entrar no mundo de marketing e vendas e descobri o conceito de "the sales and marketing machine". Eu pensei:

"ah, máquinas? Sou engenheiro, entendo isso, estou em casa!".

Aplicar esse modelo mental para gestão de empresas é muito sedutor. Afinal, máquinas podem ser previsíveis.

Mas sabe o que uma máquina não tem? Sentimentos.

Mas pessoas tem sentimentos.

Ao "abusar" do uso desse modelo mental, uma pessoa gestora talvez reduza aquilo que não deseja de um ser humano, como a falta de previsibilidade, a potencial instabilidade. Mas também talvez perca aquilo que se quer de um ser humano. O improviso, a inovação, a vontade, a motivação.

Está na hora de expandirmos as fontes de onde tiramos conhecimento para gestão de empresas. Até então, pegamos bastante coisa do mundo das exatas, da engenharia etc.

Talvez além de pegar conceitos de engenharia e pensar uma empresa como uma máquina, podemos pegar conceitos de biologia, e pensar uma empresa como um organismo. Algo com vida própria.

Afinal, não é por exemplo o corpo humano uma das "máquinas" mais avançadas que já se viu?

Talvez uma máquina tão avançada assim não seja uma máquina, seja outra coisa. Seja um organismo.


Esses pensamentos foram insights que tive ao longo da leitura do livro "Reinventando as organizações" do Frederic Laloux

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<![CDATA[Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico]]>https://hugobarauna.com/como-fazer-forecast-de-pipeline-de-vendas-usando-estatistica-alem-do-basico/5e9f4e902dca353d433e35d0Tue, 12 May 2020 18:59:38 GMT

O método padrão de fazer forecast de faturamento de pipeline tem um problema: às vezes ele te dá um valor que tem mais de 50% de chance de estar errado. Você sabia?

Neste artigo você irá aprender um novo método de fazer forecast de vendas. Ele resolve esse problema e te possibilita analisar múltiplos cenários de geração de faturamento de acordo com seu apetite para risco.

O método padrão de forecast de pipeline

Antes de tudo, o que eu quero dizer por fazer forecast de pipeline de vendas?

A pergunta que quero te ajudar a responder é:

Quanto posso esperar gerar de receita com o meu pipeline atual de vendas?

Para conseguir responder essa pergunta, normalmente você precisa dos seguintes tipos de informações:

  • o valor estimado de cada oportunidade no pipeline
  • a data estimada de fechamento de cada oportunidade
  • a probabilidade estimada de fechamento de cada oportunidade no pipeline

Vamos ver um exemplo. Imagine que você tem o seguinte pipeline no seu CRM:

Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico

Nesse pipeline você já tem a informação do valor estimado de cada oportunidade. Vamos supor que estamos em junho, e que esperamos que se cada um desses deals fechasse, eles fechariam em agosto.

Além disso, vamos dizer que você tem o seguinte histórico de taxas de conversão entre cada estágio do pipeline até o momento que a oportunidade é fechada e ganha:

Estágio no pipeline % de fechamento do estágio para fechada e ganha
Lead pediu contato 20%
Primeira conversa realizada 27%
Necessidades definidas 30%
Proposta apresentada 60%
Negociação iniciada 75%

Tabulando todos esses dados, você teria isso:

Oportunidade Valor % de chance de ganhar
Empresa A 12.000 27%
Empresa B 20.000 75%
Empresa C 30.000 27%
Empresa D 10.000 60%
Empresa E 15.000 27%
Empresa F 5.000 75%
Empresa G 30.000 20%
Empresa H 22.000 75%
Empresa I 17.000 27%
Empresa J 8.000 30%

Ao colocar todos esses dados no seu CRM, existem grandes chances dele já fazer o cálculo de forecast para você usando o método padrão. Por exemplo no Pipedrive, ele faria o seguinte forecast:

Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico

Nesse caso, o forecast de faturamento do pipeline calculado pelo Pipedrive foi de R$ 69.630,00.

Quanto você pode confiar nesse valor para o seu planejamento?

Como gestor de vendas, você se sentiria confortável em dizer para o seu CFO ou CEO que eles podem contar com um faturamento novo de R$ 69.630,00?

Para afirmar isso, seria bom antes saber que cálculo é este que está sendo feito.

Valor esperado estátísico: o método padrão para forecast de pipeline

O cálculo que o Pipedrive faz (e que muitos outros CRMs devem fazer também) é chamado de "valor esperado" na estatística.

Em estatística, valor esperado é o valor médio que se espera de uma variável aleatória ao se repetir o experimento com essa variável infinitas vezes.

Mas o que isso quer dizer?

Para o nosso pipeline de exemplo, quer dizer que se sua equipe trabalhasse nesse mesmo pipeline "infinitas vezes" e calculasse a média do faturamento resultante entre essas infinitas vezes, o valor seria de R$ 69.630,00.

Calcular esse valor é bem simples. Basta multiplicar cada valor pela sua probabilidade de fechamento e depois somar todos esses fatores. Ou seja, no nosso exemplo:

12.000 * 27% + 20.000 * 75% + 30.000 * 27% ..... + 8.000 * 30% = 69.630

Ok, a primeira vista pode não ser fácil de entender. Mas, para resgatar (ou aprender) seus conhecimentos de estatística e compreender melhor o que quero dizer, recomendo investir 4 minutos do seu tempo vendo este vídeo do Khan Academy sobre o assunto.

Beleza, e qual o problema ou limitações em usar este método para forecast de pipeline?

Um problema com o método padrão de forecast de pipeline

Um problema é que sua equipe não irá executar o mesmo pipeline infinitas vezes para ganhar a média de faturamento entre essas infinitas vezes, o que seria uma cenário mais válido para o uso da técnica de valor esperado.

Esse cenário de execução de infinitas ou inúmeras vezes faz muito sentido para outros contextos. Por exemplo para um cassino, mas não tanto para uma equipe de vendas. Quer ver?

Imagine que você é dono de um cassino e que seu único jogo é uma espécie de roleta simples. Nessa roleta, a pessoa pode apostar R$ 1 em um dos 36 números da roleta. Se ela acertar, ela ganha R$ 5. Se ela errar, ela perde R$ 1. Como dono do cassino, vale a pena para você montar esse negócio?

Para responder isso, você poderia calcular o valor esperado do ganho em R$ de rodar essa aposta inúmeras vezes (muitas e muitas pessoas jogando por meses e anos no cassino). Os dados desse jogo são o seguinte:

Valor apostado Resultado Probabilidade Valor ganho/perdido líquido
1 ganhou 1/36 4 (5 - 1)
1 perdeu 35/36 -1

O valor esperado por um jogador deste cassino é de:

1/36 * 4 + 35/36 * (-1) = -0.86

Ou seja, se um jogador apostar R$ 1 muitas e muitas vezes, no final ele tende a ter um saldo médio de perda de R$ 0,86. Por outro lado, o casino ganha esse valor que o jogador perdeu. Ou seja, para um casino, esse jogo vale a pena, estatisticamente.

Para este mundo de jogo de roleta de casino, faz total sentido aplicar a técnica de valor esperado, porque é da natureza dessa realidade rodar esse experimento (jogo) muitas e muitas vezes, o que é uma premissa da técnica do valor esperado. Para um pipeline de vendas, faz menos sentido.

Um dado pipeline de vendas será executado apenas uma vez. Este é um problema em aplicar a técnica de valor esperado para fazer forecast. Mas ainda tem mais.

Uma limitação com o método padrão de forecast de pipeline

Além da questão do contexto de forecast de pipeline de vendas se distanciar de uma premissa da técnica de valor esperado estatístico, existe mais uma desvantagem em aplicar esse método neste mundo: fica difícil fazer gestão de risco.

Gestão de risco quer dizer você ser capaz de se preparar para variações daquilo que você estima. No nosso exemplo, o forecast do Pipedrive (valor esperado) nos fala que faremos R$ 69.630 de faturamento com esse pipeline. Mas, quais as chances disso acontecer?

São baixas? São altas? É a média?

O que seria um forecast mais conservador? O que seria um forecast mais agressivo? Esse valor que está sendo calculado é otimista, pessimista ou "neutro"?

Para gestão de risco, é comum desenhar múltiplos cenários e se planejar para esses múltiplos cenários.

Porém, o método de valor esperado não te traz múltiplos cenários. Além disso, você não sabe quais as chances do forecast do valor esperado acontecer. Essa é uma limitação considerável.

Vendo esses problemas e limitações, eu percebi que dava para fazer melhor. Baseado no mindset data-driven da Plataformatec e também nos meus estudos, percebi que dava para atacar este problema com uma técnica chamada Simulação de Monte Carlo.

Um novo método para forecast de pipeline: simulação de monte carlo

Segundo a Wikipedia, Simulação de Monte Carlo é o seguinte:

Qualquer método de uma classe de métodos estatísticos que se baseiam em amostragens aleatórias massivas para obter resultados numéricos, isto é, repetindo sucessivas simulações um elevado número de vezes, para calcular probabilidades heuristicamente.

Pode parecer complexo, mas não é tanto assim. Para entender, vamos ver um exemplo.

Imagine que você tem o seguinte pipeline de vendas:

Oportunidade Valor % de probabilidade de ganhar
Empresa A 12.000 50%
Empresa B 20.000 25%

Quanto seria o forecast de faturamento desse pipeline?

Como são apenas duas oportunidades, podemos montar todos os cenários possíveis na mão. São basicamente 4 cenários:

Cenário Probabilidade do cenário Faturamento do cenário
Ganha A e ganha B 50% * 25% = 12,5% 12.000 + 20.000 = 32.000
Ganha A e perde B 50% * (1 - 25%) = 37,5% 12.000
Perde A e ganha B (1 - 50%) * 25% = 12,5% 20.000
Perde A e perde B (1 - 50%) * (1 - 25%) = 37,5% 0

Se você fosse calcular o forecast desse pipeline com o método de valor esperado (ou com o Pipedrive), você chegaria no valor de R$ 11.000. Porém, percebe que em nenhum dos quatro cenários possíveis o faturamento do pipe é de R$ 11.000?! (sim, essa é mais uma desvantagem)

Além disso, segundo os cálculos de probabilidade acima, existe 37,5% de chance você fazer menos de R$ 11.000 com esse pipeline. Em outras palavras, se você falar pro seu CEO ou CFO que deve fazer R$ 11.000 ou mais com esse pipeline, existe aproximadamente 1 em 3 chances de você estar errado. Ou seja, esse cálculo pode comprometer o planejamento financeiro da empresa.

Por isso é importante você saber quais as chances de probabilidade de fazer um certo faturamento ou mais. Não apenas estimar um número. Mas estimar um número e sua probabilidade de acontecer. Isso é gestão de risco. ;)

Simulação de Monte Carlo é uma técnica que pode ser usada para estimar o percentual de chance de cada um desses cenários possíveis do seu pipeline.

No caso acima foi fácil calcular na mão as probabilidades, porque como são apenas duas oportunidades, você precisa calcular apenas quatro cenários. Mas e no caso do nosso exemplo:

Oportunidade Valor % de chance de ganhar
Empresa A 12.000 27%
Empresa B 20.000 75%
Empresa C 30.000 27%
Empresa D 10.000 60%
Empresa E 15.000 27%
Empresa F 5.000 75%
Empresa G 30.000 20%
Empresa H 22.000 75%
Empresa I 17.000 27%
Empresa J 8.000 30%

Quantos cenários são possíveis da combinação de perda e ganho entre essas dez oportunidades? Qual a probabilidade de acontecer cada um desses cenários?

Usando Simulação de Monte Carlo, é possível estimar que existe algo em torno de 120 cenários possíveis de faturamento resultado desse pipeline. 120!!! É impraticável você fazer isso na mão. Por isso, a tecnologia, a estatística (e a planilha que vou compartilhar com você ao final deste artigo) estão aqui para te ajudar com isso.

Passada toda essa explicação e esse cenário, já da para começar a entender e intuir melhor o que é a técnica de simulação de monte carlo. Nada mais é do que uma "análise de cenários ao infinito" com o cálculo de probabilidade desses cenários.

Um algoritmo irá simular milhares de vezes o resultado final do seu pipeline, usando os valores e a probabilidade de fechamento de cada oportunidade. Ao final, ele terá montado as dezenas, centenas ou mais de cenários possíveis e terá calculado a probabilidade de acontecer cada um desses cenários.

Baseado nesses cenários, você pode fazer sua análise de faixas esperadas de faturamento. Muito legal né?! :)

Um exemplo de simulação de monte carlo para forecast de pipeline

Para finalizar, vamos aplicar esse método para o nosso exemplo de pipeline e fazer algumas análises.

O pipeline em questão é o seguinte:

Oportunidade Valor % de chance de ganhar
Empresa A 12.000 27%
Empresa B 20.000 75%
Empresa C 30.000 27%
Empresa D 10.000 60%
Empresa E 15.000 27%
Empresa F 5.000 75%
Empresa G 30.000 20%
Empresa H 22.000 75%
Empresa I 17.000 27%
Empresa J 8.000 30%

Aplicando a simulação de monte carlo, da para construir o seguinte gráfico de distribuição de probabilidade de forecast de faturamento:

Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico

Perceba que o cenário que mais tem chances de acontecer, tem pouco mais de 6% de chance. Esse cenário é o de forecast em torno de R$ 57.000.

Saber a chance de fazer um certo faturamento pode ser útil. Mas outra análise útil, seria saber por exemplo "quais as minhas chances de fazer pelo menos R$ 37.000 de faturamento?".

Com essa informação, você poderia chegar para o seu CEO ou CFO e dizer: "segundo nosso forecast de pipeline, temos excelentes chances de fazer pelo menos R$ 37.000 de faturamento, você pode contar com esse número para nosso planejamento financeiro".

Baseado nos dados da simulação de monte carlo, podemos montar um gráfico que nos diga qual a probabilidade de fazer pelo menos um certo faturamento. Para o nosso exemplo, esse gráfico ficaria assim:

Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico

Com os dados desse gráfico, é possível concluir por exemplo que tenho 90% de chances de fazer pelo menos R$ 37.000. Assim como, tenho 50% de chances de fazer pelo menos R$ 67.000.

Perceba que quanto maior o faturamento mínimo que você espera, menor suas chances, apesar de ainda ter chances. Isso é gestão de risco.

Você quer ser arrojado? Pode fazer um forecast que tem a mesma probabilidade de tirar cara ao jogar uma moeda de cara e coroa para cima.

Você quer ser mais conservador e se planejar para uma chance maior, como 90%? Com esse método, você pode escolher.

Com os dados desse gráfico, você poderia montar a seguinte tabela de cenários:

Cenário Faturamento mínimo Probabilidade
Conservador 37.000 90%
Boas chances 52.000 75%
Arriscado 67.000 50%

Perceba que no cenário arriscado (50% de chances), o faturamento que você pode esperar é de R$ 67.000 ou mais. Vale lembrar que usando a técnica de valor esperado, você chegaria em um forecast de R$ 69.630 para esse pipe. Ou seja, acima do mínimo de R$ 67.000 que tem 50% de chance de acontecer.

Ou seja, nesse exemplo, se você estiver usando o Pipedrive para fazer seu forecast (ou qualquer outro CRM que use o valor esperado), você tem pelo menos 50% de chance de estar errado. Você está "fazendo uma aposta" de cara e coroa. Essa pode ser uma aposta meio cara.

Vamos ver isso visualmente:

Como fazer forecast de pipeline de vendas usando estatística além do básico

O que o gráfico acima mostra é que em menos de 50% dos cenários o faturamento do pipeline é maior ou igual ao valor esperado. Ou seja, como falei na abertura deste artigo, as vezes o método padrão de forecast de pipeline tem menos de 50% de chance de estar certo.

Precisamos ter cuidado e evoluir nossos métodos de fazer forecast.

Quer aplicar simulação de monte carlo para o seu pipeline?

Eu montei uma planilha para que você possa copiar e colocar os dados do seu próprio pipeline e fazer forecast usando simulação de monte carlo.

Além disso, também coloquei todos os cálculos e gráficos realizados neste blog post em uma outra planilha, para que você possa ver em detalhes o que foi feito ou fazer uma cópia.

BAIXAR PLANILHA DE SIMULAÇÃO DE MONTE CARLO EM PIPELINE DE VENDAS

Perguntas, críticas, elogios? Por favor deixe seu comentário. Estou ansioso em receber feedback sobre o que estou escrevendo neste blog! :)

Este artigo foi publicado originalmente em Ptec Growth.

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<![CDATA[O fim de uma história é o começo de outra]]>https://hugobarauna.com/o-fim-de-uma-historia-e-o-comeco-de-outra/5e8778d72dca353d433e355aFri, 03 Apr 2020 19:53:44 GMTO fim de uma história de 11 anosO fim de uma história é o começo de outra

Todo fim gera um novo começo. Ou novos começos.

Aconteceu um final recente para mim. Dia 6 de março de 2020 foi meu último dia na Plataformatec. Não só foi o meu último dia lá, como também foi o último dia da empresa também.

Depois de 11 anos de uma belíssima e realizadora jornada, esse capítulo da minha vida chegou ao fim. Em 6 de janeiro de 2020 foi ao público a notícia que a Plataformatec foi acqui-hired pela Nubank.

O fim de uma história é o começo de outra

Nós fundamos a Plataformatec em janeiro de 2009. Foram tantos anos de empresa que em certo momento a minha identidade já se confundia um pouco com a identidade da Ptec. Felizmente, deu tempo de aprender que se definir unicamente por algo não é saudável. Pois tudo termina, e quando esse algo terminar, você não pode terminar junto.

Lembro que no final de 2018 ouvi a seguinte frase em uma sessão de coaching: "não existe um único modo de ser feliz na vida". Então quando no final de 2019 veio a possibilidade de que a Ptec poderia deixar de existir, eu estava pronto para isso (na medida do possível).

Existia um outro modo de ser feliz, fora da Ptec. Fora da minha própria empresa para a qual eu tinha dedicado 11 anos da minha vida.

Tenho muito orgulho de como foi toda a história da Ptec e também de como ela terminou. Do ponto de vista do "manual do empreendedor", foi um final bonito. Foi um bom final de história para contar.

Porém, mais do que um bom final de história, meu orgulho mesmo foi o que fizemos ao longo dessa história e como fizemos. Mas, isso vai ser assunto para outros blog posts.

Agora queria falar sobre sobre como esse fim me trouxe para um novo começo.

Decidi tirar um sabático de ~9 meses

Com o fim da Plataformatec, eu precisava decidir o que ia fazer da minha vida. Será que eu iria abrir uma nova empresa? Será que eu iria me juntar a uma empresa que já existia?

Decidi tirar um período de sabático.

Do ponto de vista profissional, uma das principais decisões que quero tomar ao longo desse período é se vou montar uma empresa nova ou se vou entrar em uma empresa já existente.

Decidi também que não vou fazer isso com pressa. A princípio, vou me dar tempo para refletir sobre isso até dezembro de 2020. Pouco mais de nove meses de sabático. Estou encarando isso como um presente que estou dando para mim mesmo.

Mas pra mim, nove meses é tempo demais para ficar somente refletindo se vou empreender ou não. Então decidi fazer algumas outras atividades e projetos.

Do ponto de vista pessoal, decidi que:

  • vou fazer exercício físico com mais frequência (treinamento funcional, cross fit, passeio de bicicleta)
  • vou dormir mais
  • vou meditar mais
  • vou ler mais
  • vou fazer cursos que não tenham relação direta com o mundo do trabalho
  • vou aprender a "fazer nada"
  • vou viver sem pensar que a maior parte do meu tempo acordado tenha que ser produtivo

Do ponto de vista profissional, decidi que:

  • vou programar por lazer
  • vou conhecer e conversar com pessoas que possam me inspirar
  • vou conhecer e conversar com pessoas de empresas nas quais eu gostaria de trabalhar
  • vou pensar sobre ideias de negócio para talvez montar uma nova empresa
  • vou refletir sobre as relações de trabalho, se elas podem ser diferentes do que já fazemos
  • vou refletir sobre o espaço que o trabalho ocupa na vida de uma pessoa e sobre como isso pode ser diferente
  • vou fazer consultoria para ajudar empresas de desenvolvimento de software
  • vou tentar ajudar outros empreendedores, seja com mentoria, seja com consultoria
  • vou escrever um blog para compartilhar tudo que aprendi em mais de 11 anos empreendedorismo na Ptec (este blog! 🙂)

Dito isso, essas ideias são mais uma direção do que um plano em si.

Eu já planejei demais nos últimos 11 anos da minha vida. Talvez agora seja o momento para me desafiar a planejar um pouco menos e tocar a vida de um modo um pouco mais fluido.

O começo deste blog

Apesar de ser engenheiro de computação de formação e adorar programar, decidi fazer outras coisas além de engenharia ao longo da minha carreira. Segui uma carreira empreendedora.

Como um empreendedor, me identifico como alguém que aprende algo e resolve problemas come esse conhecimento. Com isso em mente, desde 2014 precisei aprender e trabalhar com marketing para ajudar no crescimento da Ptec. No começo foi uma necessidade, mas depois virou mais uma das minhas paixões.

Depois de muitos anos trabalhando com marketing, percebi que já não penso somente com a cabeça de um engenheiro. Agora também tenho um viés de marketing naquilo que eu faço.

Essa viés de marketing me fez refletir sobre como eu iria tocar este blog.

Do ponto de vista de marketing, o conteúdo de um blog deveria ser direcionado pelos interesses e desafios dos seus leitores. A sua buyer persona. Porém, eu gosto de muitos temas diferentes que não necessariamente são interesses de uma única persona.

Então veio um dilema: vou escrever esse blog para o leitor ou para mim?

Decidi que vou escrever para mim.

Decidi que vou escrever para saciar minha vontade de compartilhar conhecimento, com a esperança que isso vá ajudar outras pessoas que tenham algum interesse em comum comigo.

Para começar, minha ideia é compartilhar tudo que aprendi em 11 anos de Plataformatec. São assuntos de vários temas, entre eles:

  • empreendedorismo
  • desenvolvimento de software
  • marketing
  • vendas
  • gestão de pessoas
  • planejamento
  • estratégia

Apesar deste blog ser principalmente para compartilhar aquilo que aprendi em relação ao mundo do trabalho, acredito que da para ir além disso. Afinal, o trabalho não é a única coisa que nos define, certo? Ou pelo menos não deveria.

Então por que não falar também sobre outras coisas que me interessam? Como por exemplo, meditação? Vamos ver.

Espero que o que eu venha a escrever aqui seja tão bom pra você quanto vai ser pra mim.

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Bem vindo, ao meu blog!

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